Filhos e a Internet: Como proteger?

Sempre me pergunto isto, muito me preocupa, filhos e a Internet: como proteger? Desde que tive meu primeiro filho em 2004, e como ele começou cedo a mexer nos computadores da casa (com um ano e meio ligava e mexia com alguma desenvoltura), comecei a me preocupar com diversos aspectos, que tipo de conteúdo ele poderia ver sem supervisão, como evitar que ele simplesmente clicasse em alguma coisa potencialmente perigosa, e diversas outras situações de perigo em potencial.

Claro que eu sempre conversei muito com ele (e essa abordagem me parece ainda a melhor, ou pelo menos a inicial) e ativei diversos tipos de bloqueios e filtros, iniciando com o próprio Google e Google Vídeos, posteriormente com o YouTube, mas o guri tinha 3 ou 4 anos e me mostrou: Olha só pai, eu pesquiso aqui por isso e aí não aparece nada, aí eu me deslogo da minha conta do Google e funciona de novo…

Então percebi que a coisa não ia ser tão simples, mas sempre fui explicando a ele, e conforme a idade avançava, dos perigos que poderiam ocorrer.

Até hoje, está com 11 anos, ele só deixou a máquina ser contaminada por vírus uma única vez, e embora nesses anos a cada coisa esquisita que ele encontrava ele me chamasse para averiguar se estava correto (e é claro que ninguém quer ser interrompido a cada 5 minutos), entendo que esse tipo de apoio que eu dei foi fundamental para que ele aumentasse seu conhecimento e pudesse agir em sua própria proteção em boa parte dos casos.

Ainda acho que é muito mais importante explicar os tipos de conteúdo que ele não deve nunca compartilhar, os tipos de informações sensíveis que nunca deve compartilhar (escola onde estuda, rua onde mora, local onde faz atividades) terá um efeito muito mais benéfico na capacidade do seu filho de filtrar posteriormente o que pode ou não fazer online.

Você está pensando naquelas fotos que você compartilha do seu filho com a camisa da escola, depois de você ter feito o check-in? Pense melhor.

1 – Principais usos da Internet pelas crianças

  • Ferramenta de pesquisa: É o uso mais frequente, é a ferramenta sobre a qual a Internet foi construída, no que diz respeito às suas maiores utilidades e facilidades. É importante tentar ativar algum filtro de conteúdo, restringir os resultados, embora a possibilidade de aparecer algum conteúdo impróprio ou exibir uma foto inadequada sempre estará lá, minimiza o problema.
  • Redes sociais: Aqui entendo que é um grande poço, não sem fundo, mas aí você precisa ficar ciente, ele vai participar de grupos, de discussões, receber conteúdos, e é muito complicado de controlar. É claro que num grupo como o da escola ou dos amigos do esporte favorito, os conteúdos e interesses tendem a ser os mesmos, então observando o grupo você também pode intuir o tipo de coisas que estarão vendo. Sempre importante pedir para ver, ou até ver escondido com cuidado. Mas talvez a parte mais importante seja você averiguar de tempos em tempos os “amigos” de cada rede social e questionar quem são os que você desconhece, e ver, caso ele também não tenha certeza explique o que pode um agressor virtual fazer com alguém da idade do seu filho, se ele puder entender é claro. Interessante no meu caso é que meu filho mais velho tem algum desprezo pelas redes sociais, vejo quando ele acessa de tempos em tempos, as mensagens acumuladas e conteúdo que ele não vai vendo!
  • Jogos: Impossível a criança não jogar hoje em dia né? O meu filho joga desde sempre, é claro que atualmente o tempo de jogo tem aumentado. Então é fundamental você ter controle e estabelecer limites. E não é apenas um jogo.
  • Vídeos: Não bastasse jogar o Minecraft ainda fica vendo vídeos de partidas de outros jogadores no Minecraft, vê dezenas de canais de jogos, hardware e outros interesses no YouTube, e vídeos de todas as qualidades possíveis. Desde canais profissionais até os “YouTubers” famosos – mas nem por isso educados – que se pode imaginar. É importante ficar em cima, a facilidade para ver algo inadequado é muito grande. Mas no meu caso percebi que embora tenha feito algumas vezes, creio que por curiosidade, reduziu este comportamento, ou pelo menos está escondendo bem de mim!

2 – Como elas acessam a Internet

  • Computadores: Pelo que sei 80% dos colegas do meu mais tem computadores desktop, o restante pelo menos um notebook, e é nos primeiros onde eles fazem a jogatina mais pesada, que exige mais.
  • Tablets: Além de assistirem muito vídeo por aqui, eventualmente jogam e consomem outros conteúdos.
  • Smartphones: Aqui é para cima e para baixo. Limitar o plano de dados ajuda a controlar fora de casa, mas também cria outros problemas caso seu filho tenha que se comunicar com você por WhatsApp ou chamar um táxi num App qualquer e não tiver mais franquia de dados para consumir. Mas eles utilizam o tempo todo, até na hora de dormir. É bom controlar sim e de vez em quando você dá uma incerta, na frente dele ou não.
  • Televisores: Cada vez utilizam menos, mas acessam YouTube e Netflix frequentemente. Então no primeiro caso se aplicam as regras que comentei anteriormente. E quando assistem TV sempre tem uma segunda tela de apoio.
  • Consoles de vídeo game: Cada vez menos utilizado em função dele preferir a experiência no PC. Claro que existe no console os mesmos perigos dos jogos online e amizades que não conseguimos identificar corretamente pois normalmente utilizam avatares para criar suas personas.

3 – A parte ruim

  • Cyber Bullying: Hoje as crianças socializam e compartilham muito conteúdo online. Como externam muitas emoções fica mais fácil serem alvos de pessoas mal-intencionadas e predadoras em geral. Elas vão utilizar as informações encontradas para acharem uma maneira de atingirem nossas crianças. E essas pessoas podem ser muito próximas.
  • A conta roubada: Outro perigo é a facilidade de se utilizar senhas fáceis para cadastro em serviços online em geral. Sempre que posso faço meu filho utilizar senhas complexas ou um segundo nível de segurança como um token (app no celular) quando estiver disponível. Você evitará que seu filho tenha alguma conta invadida e seja vítima de ataques deste tipo.
  • Identidade falsa: A facilidade para alguém se passar por outra pessoa é imensa na Internet. É sempre preciso lembrar que a menos que você esteja vendo por vídeo ou conversando por áudio, qualquer outra forma de interação pode ser falsa, pense bem se é 100% garantido que seja a outra pessoa do outro lado…
  • Jogos online: Meu mais velho tem conta no Steam (plataforma para compra e download de jogos, que tem sua prórpia comuindade), usa a mesada para comprar os próprios jogos, e quando está jogando, não importa se é o maldito Minecraft (eu particularmente não gosto desse jogo porque ele me faz lembrar com aquela resolução ridícula dos seus cubos, como era jogar a 30 anos atrás, então me causa grande sofrimento observar este jogo), GTA V ou algum outro jogo de ação/tiro em primeira pessoa, normalmente ele está com o fone/microfone ativado, sim eles se comunicam enquanto jogam, e o tablet com o Skype aberto em uma conference mais restrita com os colegas de jogo. E é assim que é, e não pense que ele joga só com os amigos aqui da cidade, é do Brasil e mundo afora. As vezes até falando algum inglês encontro ele. Não tem como não ficar preocupado.
  • Bullying em grupo: Isso ocorre com alguma frequência. Eventualmente percebi meu filho meio triste, e com alguns truques fiz ele me contar o motivo. Alguns amigos (nem tão amigos assim) se juntaram e começaram a criar problemas para ele durante um jogo, atacando, falando baixarias e tentando humilhar ele de diversas formas. Claro que foi simples ignorar os então amigos a partir daí, mas isso pode ocorrer a qualquer tempo, até com pessoas desconhecidas em algum local online que ele frequenta, é importante ficar atento aos sinais.
  • Colagem (meme): Com o crescimento das redes sociais, app de trocas de mensagens, ficou comum fazerem colagem, ou trollar como eles chamam, normalmente no sentido de ridicularizar o alvo, e rapidamente compartilhar isso online ou entre os celulares de todos os alunos de uma escola. Então converse muito e peça informações sobre casos assim que estejam ocorrendo na escola.
  • Perfil aberto: Da mesma forma que seu amigo no Facebook escreve algum comentário inconveniente no seu perfil/timeline, o mesmo pode acontecer com seu filho. Então tente restringir na conta dele quem pode fazer tais ações.
  • Captura de tela: Eventualmente a criança na inocência escreve alguma coisa para alguém que confia sobre uma terceira pessoa, e esse por sua vez captura a tela do aplicativo e a compartilha com outros fora da discussão, gerando inconvenientes e constrangimentos desnecessários. Lembre sempre seu filho sobre isso. Lembre até que áudios e vídeos também são facilmente gravados hoje em dia.
  • Pornografia: Os meninos tem facilidades para se exporem a isso, além dos sites a própria troca de informações entre amigos e redes de relacionamentos facilita isso. Só com conversa e filtros de conteúdo para minimizar.
  • Predadores online: Normalmente são em média 20 anos mais velhos que as vítimas. Agem normalmente a partir de salas de chat antes de marcarem encontros reais com as vítimas.
  • Sexting: É talvez o pior cenário para as meninas, acabam por vezes compartilhando fotos íntimas semi-nuas ou nuas com uma pessoa que gostam, e são traídas na confiança de não terem seus momentos privados divulgados. Também ocorre com alguma frequência a partir de arquivos mantidos nos celulares e tablets (que eventualmente sincronizam conteúdos) e em algum momento de descuido nem percebem que tem o material copiado e distribuído até por um amigo que mexe no aparelho ou pede para usar por um momento.
  • Redes sociais: O que o Facebook sabe sobre você (ou seu filho): Quer saber tudo o que o Facebook sabe sobre você (ou seu filho)? Dê uma olhada aqui neste tutorial do Canaltech.
  • Você deveria desativar a localização no Facebook Messenger: Uma boa matéria no Gizmodo explicando como a localização do Facebook Messenger (com o seu GPS do telefone) deveria ser desativada, confira aqui. Eu não utilizo os aplicativos das redes sociais no meu telefone, utilizo somente no navegador do celular, economiza bateria e me mantém mais anônimo.
  • Tech Toys: Ainda muito nova, a IoT, ou Internet of Things nem é conhecida ou considerada uma ameaça pela a maioria das pessoas. Mas eu tenho certeza que será num futuro próximo. A quantidade de brinquedos e dispositivos conectados e coletando informações, fotos e outros dados sobre os nossos filhos só tende a aumentar.

4 – Iniciativas legais

  • Mozilla Web Literacy: Um local para você aprender e aperfeiçoar suas habilidades, escolha o assunto que deseja se aprimorar e se atualize com as sugestões. Confira.
  • Iniciativa da Estônia: Depois de sofrer severos ataques de origem russa, não só a infra estrutura pública mas privada também, em 2008, o governo então implantou uma série de restrições e melhorias técnicas, que incluía entre outras coisas um grande projeto de defesa em cybersegurança, que previu entre muitas coisas, educar melhor o cidadão a respeito dos ataques que podem ocorrer na Internet, e isso foi implantado nas escolas desde cedo. Hoje um estudante de 16 anos lá tem ótimas noções de cybersegurança e criptografia por exemplo. Os especialistas já constataram uma melhora sensível nos níveis de conhecimento de segurança da população em geral.
  • Central de segurança do Google: O Google não faz somente analisar e catalogar tudo o que você e seus filhos fazem online para lhe oferecerem os banners mais atrativos para que você clique e eles embolsem um $, tem também coisas legais, a Central de Segurança do Google é fantástica, vale a pena conferir.
  • Safer Internet Day 2016: Organizado em fevereiro de cada ano, é um lugar que visa melhorar a Internet. Dezenas de eventos e iniciativas ordenadas são listadas e divulgadas.
  • Internet Segura BR: Coleção de diversos links e guias para jovens e crianças utilizarem a Internet de maneira segura, além de sugerir informa sobre os riscos e proteções que devem ser tomadas na Internet.
  • Sílvio Meira no TEDx São Paulo: O link do vídeo eu não encontrei mais, mas o pesquisador Silvio Meira entre outras coisas lembra que segundo a Nielsen, as crianças de 2 a 11 anos estão em peso na Internet. Embora o número de usuários entre 2004 e 2009 tenha crescido apenas 10%, o número de crianças cresceu 19%.
  • Microsoft PhotoDNA: A Microsoft oferece uma ferramenta gratuita para varrer a Internet e as redes sociais com objetivo único de combater pornografia infantil.
  • We are Thorn: Visando criar uma legião de defensores dos direitos das crianças e evitar abusos e exploração sexuais via meios eletrônicos e tecnológicos foi criada a Thorn.
  • Ato de Proteção à Privacidade Online Infantil, ou COPPA, de 1998: Visando coibir abusos de coleta de informações infantis através de sites da Internet foi criado o COPPA.

5 – Quer saber mais?

Especialistas recomendam Internet limitada para as crianças

A inegável facilidade em acessar a Internet, e todos os seus benefícios, também temos que observar os aspectos negativos disso. Quantos casos de cyberbullying já tomamos conhecimento? E os casos de suicídio ou depressão depois desses episódios. Se faz sim necessário aprendermos a dosar e controlar.

Não adianta passar horas na frente de uma tela e perder algum referencial da vida de verdade, ao mesmo tempo que temos que permitir que evoluam nos aspectos intelectuais, melhorem algumas potencialidades e aprendam com a tecnologia.

O pesquisador Gary Small, do Centro de Memória e Envelhecimento da UCLA, diz que pesquisar na Internet ativa áreas mais extensas do cérebro, diferentes daquelas que são estimuladas pela leitura de um livro por exemplo. Ainda que crianças conectadas são melhores tomadoras de decisões e lidam melhor com estímulos sensoriais simultâneos.

A psicopedagoga Alexandra Custodio Silveira lembra que crianças que ficam muito tempo na Internet podem ter problemas como solidão, depressão, ansiedade e baixa auto-estima. Também baixo nível de bem-estar.

Dicas de segurança na Internet para crianças e adolescentes (AVG)

Eu estou citando a AVG apenas para ilustrar, existem diversas empresas de segurança que além de fornecerem boas soluções de segurança (anti vírus, firewall, etc) trabalham para nos proteger online. Veja as dicas da AVG no Techtudo.

Facebook mostra influência da tecnologia na criação dos filhos
Uma pesquisa global chamada “Meet the parents” foi feita na Austrália, Brasil, Canadá, México, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos entre março e abril de 2015. Mais de 1.000 pais com idades entre 25 e 65 anos foram entrevistados, e posteriormente os dados foram divulgados pelo Facebook.

Segundo o coordenador da pesquisa, Gabriel Gontijo, a atuação dos pais mudou muito em função da tecnologia, e a pesquisa mediu o impacto dessa mudança na vida deles. Muitos dados foram coletados, entre eles:

  • Os pais brasileiros passam 1,2 vezes mais tempo no Facebook do que os que não tem filhos;
  • 57% dos pais usam seus dispositivos para entreterem as crianças;
  • 74% disseram que a mobilidade auxilia manter contato com a família durante os primeiros meses da paternidade;
  • 87% acham que tem mais acesso à informação do que seus pais tiveram;
  • Novas mães postam 1,7 vezes mais atualizações e 2,4 vezes mais fotos comparado com quem não tem filhos;

Olhe lá e tire suas conclusões.

6 – Ferramentas interessantes para se proteger

  • Lumiun: Ferramenta de segurança e controle de acesso.
  • Qustodio: Controle parental grátis na Internet!
  • Trevio: Ferramenta de proteção para a família toda.
  • Anti vírus: Alguns tem ótimas ferramentas de controle parental, recomendo você pesquisar e comprar licenças que sirvam para todos os dispositivos da casa.

E de nada adianta utilizar ferramentas acima se você não cuida (e nem informa seus filhos) da importância de manter senhas em dispositivos e aplicativos com a melhor segurança possível. A maioria dos sites ainda oferece segurança de segundo nível com alguma facilidade. Minimizando os riscos você evita problemas, então comece com a sua senha do telefone 12345 ou 000000.

7 – Dicas para você e seus filhos

O que fazer se você for “invadido”?

  • Termine com o acesso remoto, desconecte a máquina da Internet;
  • Troque todas as senhas de acesso, de preferência de outra máquina;
  • Escaneie a máquina;
  • Procure por logs de acesso;

Na dúvida chame um técnico, prevenção é sempre melhor que resolver o problema depois de feito o estrago.

8 – E para fechar

Primeiro assista ao vídeo da sempre fantástica Patricia Peck Pinheiro.

The conversation we’re not having about digital child abuse (with subtitles) | Sebastián Bortnik

Estudos realizados mostraram que as crianças entre 3 e 7 anos, utilizando aplicativos específicos por um período de tempo, em seus dispositivos móveis, tiveram ganhos na compreensão de vocabulário e na alfabetização.

Estudos do International Journal of Education in Mathematics, Science and Technology descobriu que com o uso de iPads as crianças conseguiam navegar e utilizar os aparelhos tranquilamente, trabalhavam melhor maneiras de leitura, escrita e conversação no contexto, e ainda que a ferramenta tinha um aspecto social interessante, uma vez que conversavam e trabalhavam em conjunto enquanto utilizavam o dispositivo.

Por outro lado, crianças com tendências hiperativas podem piorar com o uso prolongado, prejudicando a concentração. Se o tempo de uso diário para jogos é maior do que 2h, os problemas de dificuldade de atenção aumentam consideravelmente.

No Canadá por outro lado, estudos demonstraram aumento de desordens de alimentação, obesidade, diminuição de atividades físicas, aumento do consumo de comidas e bebidas de baixo valor nutricional, e aumento de até 5% da massa corporal.

Então, tudo o que é demais prejudica. Abaixo coloquei alguns infográficos interessantes que utilizei em alguns dos dados demonstrados acima. Você pode tirar suas próprias conclusões, mas não elimine o uso da tecnologia da vida do seu filho!

 

Photo credit: JeremyOK via Foter.com / CC BY-NC-SA

Gustavo Tagliassuchi

Velha ave de rapina, estudioso da web e seus desdobramentos, nerd, micreiro, pai dedicado de três filhos (um é peludo), marido esporádico, empreendedor, especialista em desenvolvimento de software para web, pesquisador, escritor, professor, marketeiro digital, blogueiro, apreciador de cervejas artesanais, profundo admirador do WordPress, ouvinte das músicas dos anos 80, sobrevivente do colesterol alto e corredor muito muito amador.

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