O que a IA precisa e que só você pode dar?

Por que a corrida para automatizar tudo ignora justamente o que faz o marketing funcionar?

A cada novo modelo de linguagem lançado, ressurge a mesma promessa: agora sim a inteligência artificial vai resolver todos os problemas do marketing digital.

E a cada rodada, a conversa ignora os mesmos pontos cegos.

O texto original que serve de base para esta análise — escrito ainda nos primeiros meses do ChatGPT — já identificava três desses pontos: autenticidade, capacidade de conexão e inspiração.

Quase três anos depois, os dados não só confirmaram essas intuições como revelaram que o problema é mais profundo do que se imaginava.

Autenticidade

A autenticidade sempre foi importante no marketing, mas em 2026 ela se tornou uma questão de sobrevivência para marcas. O motivo é simples: o público desenvolveu anticorpos contra conteúdo artificial.

Uma pesquisa da TRG Datacenters mostrou que o entusiasmo dos consumidores em relação à IA caiu de 50% em 2024 para apenas 19% em 2026.

O termo “AI slop” — uma expressão pejorativa para conteúdo genérico e repetitivo gerado por IA — teve suas menções multiplicadas por nove em um ano, atingindo 2,4 milhões de ocorrências, das quais 82% carregavam sentimento negativo.

A expressão foi tão marcante que o dicionário Merriam-Webster a elegeu como a “Palavra do Ano” de 2025.

Esse ceticismo não é abstrato. Segundo o relatório State of Video 2026 da Animoto, 78% dos consumidores confiam mais em vídeos com pessoas reais do que em conteúdo gerado por IA.

Entre os que identificaram vídeos como provavelmente produzidos por IA, 36% disseram que isso reduziu a confiança na marca.

Um relatório da MyTSV, publicado em abril de 2026 e intitulado The Collapse of Digital Trust in the AI Era, resume a mudança de forma direta: os consumidores já não perguntam se um serviço é bom — perguntam se ele é real.

A autenticidade de que estamos falando aqui não é uma técnica retórica. É a diferença entre alguém que entende o que o cliente sente e alguém que simula essa compreensão com base em padrões estatísticos.

Quando um profissional de marketing escreve uma campanha e sente aquele desconforto no estômago — a sensação de que algo pode soar forçado ou desrespeitoso com o público — está operando em um registro que nenhum modelo de linguagem consegue replicar.

Esse instinto nasce da empatia real, da experiência acumulada de interações humanas, de já ter errado e aprendido com a reação do outro. A IA pode simular o tom, mas não tem pele no jogo.

Conexão e pensamento lateral

Uma das características mais valiosas de um bom profissional — em qualquer área, mas especialmente no marketing — é a capacidade de conectar experiências aparentemente desconectadas.

Pegar algo aprendido no setor financeiro e aplicar ao varejo. Lembrar de uma pesquisa sobre timing de e-mails de carrinho abandonado e usá-la para redesenhar uma estratégia de retenção em outro contexto. Trazer uma analogia do cinema para explicar um conceito de segmentação.

Essa capacidade de extrapolação é fundamentalmente diferente do que os modelos de linguagem fazem. A IA trabalha com correlações em dados de treinamento — ela encontra padrões recorrentes e os reproduz.

Um ser humano, ao contrário, cria pontes entre domínios diferentes com base em experiência vivida, intuição e até acaso.

É o que podemos chamar de pensamento lateral: a habilidade de resolver um problema usando caminhos que não estão nos manuais.

Há outro aspecto que o texto original captura com precisão: a capacidade de ler o ambiente e ajustar o discurso em tempo real.

Em uma conferência, perceber que a plateia é de profissionais operacionais e não de executivos — e mudar o nível de abstração na hora — é algo que exige uma leitura social que nenhum modelo consegue fazer sem acesso ao contexto vivo da sala.

Esse ponto ganha uma dimensão nova em 2026. Um estudo da Microsoft e da Universidade Carnegie Mellon, apresentado na conferência CHI 2025, revelou que a confiança excessiva em ferramentas de IA tende a reduzir o esforço cognitivo aplicado ao trabalho.

Em outras palavras: quanto mais delegamos o pensamento à máquina, menos exercitamos nossa capacidade de pensar por conta própria.

A OCDE, em seu relatório sobre indicadores de capacidade da IA (2025), classificou as ferramentas mais avançadas do mercado entre os níveis 2 e 3 (de 5) no domínio de metacognição e pensamento crítico.

A conclusão é que a IA ainda está longe de substituir o julgamento humano, especialmente em contextos de ambiguidade e risco — precisamente os contextos em que as decisões de marketing mais importam.

O Índice de Tendências Laborais 2026, da Microsoft, aponta na mesma direção: à medida que a IA assume tarefas de execução, o papel humano migra para funções de direção, avaliação e decisão.

O pensamento crítico e o controle de qualidade se tornam competências centrais, não periféricas.

Inspiração

A inspiração é talvez o mais difícil dos três elementos de traduzir em termos técnicos, justamente porque não é técnica. É o que faz alguém sair de uma palestra pensando diferente.

É o que transforma um artigo de fim de ano em um momento de reflexão coletiva para toda uma categoria profissional. É o desejo genuíno de ajudar outras pessoas a superarem seus próprios limites.

Inspirar exige algo que a IA não possui: uma trajetória. Uma história pessoal. A experiência de ter falhado, aprendido e tentado de novo.

Quando um profissional experiente compartilha o que aprendeu ao longo de décadas, está oferecendo algo que não pode ser extraído de nenhuma base de dados — porque não existe como dado.

Existe como vivência.

Esse é um ponto que os modelos de linguagem revelam por contraste: eles podem produzir textos motivacionais tecnicamente corretos, mas que soam ocos.

Falta a voz, a convicção, o risco pessoal de se expor diante de uma plateia ou de um leitor. A inspiração não é apenas conteúdo; é presença.

O julgamento ético

A IA não tem bússola moral. Ela pode reproduzir vieses presentes nos dados de treinamento, gerar informações incorretas com extrema confiança (o fenômeno das “alucinações”) e tomar decisões que parecem lógicas mas são eticamente problemáticas.

A OCDE foi categórica ao afirmar que as ferramentas de IA atuais ainda estão longe de realizar julgamentos éticos ou tomar decisões baseadas em valores complexos.

Isso tem consequências práticas no marketing. Quando a IA escreve um anúncio que involuntariamente reforça um estereótipo, ou quando gera uma recomendação de produto que viola a privacidade do consumidor, quem responde é a marca — não o algoritmo.

O julgamento sobre o que é aceitável, o que pode ferir e o que respeita o público continua sendo uma responsabilidade exclusivamente humana.

A regulamentação europeia de rotulagem de conteúdo gerado por IA (em vigor desde 2025) adicionou outra camada de complexidade.

Um estudo do Instituto de Nuremberg para Decisões de Mercado (NIM) demonstrou que consumidores avaliam anúncios de forma mais crítica quando sabem que foram produzidos por IA — mesmo quando o conteúdo é idêntico ao de um anúncio feito por humanos.

A percepção muda não porque o conteúdo seja pior, mas porque a confiança é um fenômeno relacional, não algorítmico.

A fórmula que funciona: IA + humano

Nada disso é um argumento contra a IA. É um argumento contra a ilusão de que ela basta sozinha.

O consenso emergente em 2026 é claro: as equipes que produzem os melhores resultados são aquelas que usam a IA como ferramenta de execução e mantêm os humanos nas decisões de estratégia, voz e direção criativa.

A IA cuida do como; os humanos cuidam do porquê. A IA gera rascunhos, variações, análises de dados e segmentações. Os humanos definem o que vale a pena dizer, para quem e de que forma.

Dizer que a IA vai matar a redação, o marketing de conteúdo ou qualquer profissão criativa é tão precipitado quanto era em 2023 — talvez mais, agora que já vimos o ciclo de expectativa inflada seguido de fadiga e ceticismo.

O que a IA fez foi elevar o padrão: em um mundo inundado de conteúdo gerado automaticamente, o que é genuinamente humano se torna mais valioso, não menos.

A pergunta certa nunca foi: A IA vai nos substituir?

A pergunta certa é: O que você tem que a IA não tem?

E a resposta continua sendo: autenticidade, pensamento lateral, inspiração e julgamento ético.

Quatro coisas que não cabem em nenhum modelo de linguagem — porque nascem de algo que nenhum modelo possui: uma vida.

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Gustavo Tagliassuchi
Gustavo Tagliassuchi

Eu sou Gustavo Tagliassuchi, minha formação é em tecnologia em informática, me especializei em desenvolvimento de software para a web, em Big Data e Inteligência Competitiva, e ainda em Segurança da Informação, mas minha experiência profissional desde a década de 90 inclui editoração eletrônica, gráficas, desenvolvimento de aplicativos multimídia multi-plataforma, produzi muito CD-ROM, quiosques multimídia, fui o primeiro desenvolvedor da Apple no RS.

Trabalhei em provedores de acesso à Internet, em algumas agências e também criei algumas delas (4 no total).

Ajudei a fundar a AGADi que posteriormente virou ABRADi e se multiplicou Brasil afora

Mais recentemente ainda fui sócio de uma empresa de e-mail marketing e monitoramento de mídias sociais, onde desempenhei diferentes atividades, como responsável pelo desenvolvimento de ferramentas oferecidas em padrão SAAS, fui responsável pelo suporte e atendimento de uma rede de mais de 18.000 marcas entre clientes diretos, canais e parceiros, além de dar apoio ao marketing digital da empresa.

Mas isso tudo não importa, o que importa é que eu nunca deixei de fazer web sites, atender clientes de todos os tipos e portes, e ajudar amigos e parceiros a utilizar melhor a Internet e a melhorar a qualidade dos serviços que prestavam, e até a criar produtos e escalar os mesmos.

Então, até influenciado por alguns deles, resolvi criar alguns cursos e transformar este conhecimento que adquiri em algo interessante para você.

Não vou vender nenhuma fórmula mágica, não garanto que ninguém vá ficar milionário da noite para o dia, mas eu acredito que consigo acrescentar alguma coisa da experiência que adquiri nesses últimos 27 anos para ajudar você a melhorar e a solucionar alguns problemas dos seus clientes, vou lhe ajudar a fazer a diferença na vida dos seus clientes.