Autenticidade na produção de conteúdo

O ecossistema digital contemporâneo é caracterizado por uma saturação sem precedentes.

A proliferação de informações, frequentemente genéricas, repetitivas e baseadas em fórmulas, cria um ambiente onde a atenção do consumidor é o recurso mais escasso e disputado.

Nesse cenário, a autenticidade emergiu de uma simples tendência para se tornar um pilar estratégico e, para muitos, a “nova norma no marketing”.

A busca por algo “genuinamente interessante” na internet tem levado consumidores a valorizar marcas e criadores que se distinguem pela honestidade e pela verdade.  

A autenticidade, neste contexto, não deve ser confundida com mera espontaneidade ou falta de polimento.

O especialista em conteúdo Paulo Cuenca define o conceito como a capacidade de uma marca ou indivíduo ser “reconhecido por uma única coisa” e ser “real”.

É, acima de tudo, a coerência inegociável entre o que é prometido e o que é entregue, uma comunicação que reflete a realidade de uma marca sem “maquiagens ou exageros”.

Essa transparência não se resume a uma declaração de valores, mas sim a uma vivência concreta da identidade, expressa em cada interação com o público.

A relevância desse tema na cultura global é sublinhada pelo fato de a palavra “autêntico” ter sido eleita a palavra do ano de 2023 pelo dicionário Merriam-Webster, um indicativo de sua importância crescente em uma era em que a distinção entre o real e o artificial é cada vez mais complexa.

O avanço da inteligência artificial generativa e a ascensão dos  

deepfakes têm intensificado a necessidade de uma comunicação que seja percebida como verdadeira e confiável.  

O objetivo deste relatório é transcender a definição básica de autenticidade, apresentando uma análise estratégica e um guia prático para que marcas e criadores possam cultivá-la.

A autenticidade será analisada como um diferencial competitivo, um meio para construir relacionamentos duradouros e um pilar de sustentabilidade a longo prazo no mercado digital.

A força da autenticidade

A autenticidade funciona como a base sobre a qual se ergue a credibilidade de uma marca no ambiente digital.

A confiança, uma vez estabelecida, se torna o ativo mais valioso, e as evidências demonstram que a autenticidade é o principal motor para essa construção.

De acordo com uma pesquisa da BCG, 71% dos consumidores consideram a autenticidade um fator decisivo antes de realizar uma compra.

Da mesma forma, um estudo da FleishmanHillard, “Authenticity Gap”, revela que 64% dos consumidores compram ou boicotam marcas com base na autenticidade percebida.  

A autenticidade humaniza a marca, transformando-a de uma entidade corporativa impessoal em uma figura acessível e com a qual o público pode se relacionar.

Quando um indivíduo real, como um funcionário ou um cliente, aparece em um vídeo para falar sobre um produto ou serviço, a conexão estabelecida é genuína, transformando a propaganda tradicional em um diálogo verdadeiro.

Essa abordagem não apenas eleva o engajamento, mas também promove uma lealdade que vai além da transação comercial, convertendo clientes em “verdadeiros embaixadores” da marca.

No marketing de influência, por exemplo, o impacto de uma campanha é significativamente maior quando o influenciador realmente acredita no que está promovendo, transformando a mensagem de uma simples “promoção” em uma “recomendação genuína” que ressoa com o público.  

A relevância da autenticidade para o sucesso de um negócio pode ser compreendida por meio de uma cadeia de causa e efeito.

A autenticidade, descrita como a “carteira” que afirma quem a marca é, gera transparência e consistência na comunicação.

Essa coerência, por sua vez, é o que constrói a confiança e a credibilidade junto à audiência.

A confiança, em um nível mais profundo, estabelece laços emocionais fortes, fazendo com que a marca seja vista como mais humana e acessível.

O resultado desse processo é um aumento na lealdade do consumidor, na intenção de compra e a resiliência da marca para resistir a crises de imagem.

Essa lógica demonstra que a autenticidade não é um objetivo final, mas um meio estratégico e fundamental para alcançar metas de negócio críticas e sustentar a marca a longo prazo.  

Os pilares estratégicos

Construir e manter a autenticidade na produção de conteúdo é um processo deliberado e multifacetado, que se apoia em pilares bem definidos.

A autenticidade não é um traço inato, mas uma prática que exige planejamento e execução consistente.

  • Conhecimento profundo da audiência: A fundação de qualquer estratégia autêntica é o entendimento do público. A autenticidade de um conteúdo só se torna relevante quando ele ressoa com as dores e interesses do cliente potencial. Para isso, é crucial ir além de dados demográficos superficiais e “conhecer o seu público a fundo”. Essa compreensão permite que a marca “promova soluções diretas para problemas reais”, distinguindo-se em meio à massa de conteúdos genéricos.  
  • A narrativa da marca e seus valores (storytelling): A autenticidade é a manifestação prática da identidade de uma marca, e o storytelling é a ferramenta mais poderosa para expressar essa vivência. A narrativa deve ser construída a partir da origem da empresa, seus valores fundamentais e seu propósito. Ao tecer esses elementos no conteúdo, a marca cria uma conexão emocional genuína, que se torna mais eficaz do que qualquer outra estratégia de marketing.  
  • Coerência entre discurso e ação: A autenticidade se manifesta na consistência inabalável em todos os pontos de contato da marca. O tom de voz e a linguagem devem ser uniformes em todos os canais, refletindo a personalidade da empresa. Mais do que a comunicação, a autenticidade exige que o discurso seja um reflexo direto das ações e dos valores internos. A filosofia de “ação primeiro, marketing depois” é o que solidifica a credibilidade da marca, demonstrando que seus valores são vividos, e não apenas proclamados.  
  • Priorização da originalidade e autoria: Em um mercado saturado de repetições, a autenticidade exige a criação de conteúdo “da porta para dentro do negócio”. Isso significa evitar a simples cópia ou reescrita de materiais já existentes e, em vez disso, produzir conteúdo que reflita a experiência e o conhecimento únicos da equipe. Exemplos de conteúdo autoral incluem a divulgação dos bastidores da empresa, depoimentos reais de funcionários e clientes (conhecidos como prova social), e a criação de materiais educacionais com  insights exclusivos. A própria pesquisa do Google valoriza conteúdos que demonstram “informações, relatos, pesquisas ou análises originais”.  

O dilema da autenticidade na era da IA

A busca por autenticidade enfrenta desafios significativos em um ambiente digital dominado pela pressão por viralidade e pela ascensão da inteligência artificial.

Uma das contradições mais marcantes é o paradoxo da perfeição. As redes sociais, embora preguem a autenticidade, bombardeiam os usuários com ideais de vida, corpo e sucesso inatingíveis.

A constante exposição a esses padrões irreais pode levar criadores e indivíduos a moldarem suas vidas para se encaixarem em um roteiro pré-determinado, sacrificando sua essência no processo.  

O medo do julgamento, o fenômeno do cancelamento e a cultura da crítica rápida, incentivada pelas plataformas, inibem a exposição da vulnerabilidade e a admissão de erros, qualidades intrínsecas à experiência humana e à comunicação autêntica.

Esse fenômeno cria um conflito fundamental: a busca pela viralidade, que é um objetivo ditado por algoritmos e métricas de vaidade, entra em guerra direta com a autenticidade, que é uma qualidade puramente humana e emocional.

A solução para esse dilema não reside em ignorar os mecanismos das plataformas, mas em recalibrar a definição de sucesso, priorizando a conexão humana e o bem-estar psicológico sobre as métricas vazias.

A psicologia e a autoavaliação contínua são apresentadas como ferramentas para ajudar a resgatar a essência e o verdadeiro significado de sucesso.  

Outro desafio crucial é o uso da inteligência artificial generativa.

Embora a IA possa oferecer velocidade e escala na produção de conteúdo, seu “uso desgovernado” pode resultar em materiais genéricos, sem profundidade emocional e que criam um “mar de ‘mesma coisa’”.

O conteúdo gerado por IA pode imitar a criatividade humana, mas frequentemente carece de originalidade e de um toque pessoal.  

A abordagem estratégica, portanto, não é rejeitar a IA, mas integrá-la como uma aliada. A pergunta-chave não é “se” deve-se usar IA, mas “como usar com eficiência, estratégia e sem perder a voz da marca”.

Ferramentas de IA podem e devem ser utilizadas para tarefas como a geração de ideias de pautas, otimização para SEO, criação de rascunhos rápidos e personalização de campanhas, liberando o tempo do criador para o que realmente importa: a estratégia, a curadoria e a criatividade humana.

O ponto de partida deve ser sempre um “briefing humano” detalhado, que guie a tecnologia com os valores, o tom de voz e o propósito da marca.  

Manutenção da autenticidade

A autenticidade é um processo contínuo de autoconhecimento e adaptação.

Marcas e criadores que desejam cultivar essa qualidade devem seguir um roteiro prático, que se inicia bem antes da publicação do conteúdo.

  • Crie a sua persona: O primeiro e mais fundamental passo é entender a quem se destina a comunicação. A criação de uma “buyer persona” permite aprofundar o conhecimento sobre o público-alvo, incluindo seus hábitos, comportamentos, dores, interesses e, crucialmente, sua linguagem.  
  • Defina seu posicionamento e valores: Antes de criar conteúdo, é preciso ter clareza sobre o que a marca representa. Responder a perguntas como “No que a sua marca acredita?” e “Quais bandeiras ela levanta?” é vital para criar uma base sólida de identificação e construir uma comunidade de seguidores leais.  
  • Encontre a sua voz e tom: Com a persona e os valores definidos, é hora de estabelecer a personalidade da marca. A voz de marca (a personalidade) e o tom (como essa personalidade se expressa) devem ser consistentes, refletindo-se em elementos de linguagem como gírias, expressões e até o uso de emojis.  
  • Priorize conteúdo de qualidade e original: Em vez de focar apenas na quantidade de postagens, a estratégia deve priorizar a qualidade e a originalidade. Conteúdos que demonstram informações, análises e experiências originais tendem a ter maior valor e credibilidade junto ao público.  
  • Teste, aprenda e adapte: A autenticidade é dinâmica. É imperativo testar o tom de voz em diferentes canais, como redes sociais e blogs, para verificar se ele soa genuíno ou forçado. O processo contínuo de ouvir o feedback do público e adaptar a estratégia é o que permite que a marca se mantenha relevante sem perder a sua essência.

Conclusão

Em um cenário digital cada vez mais saturado e tecnológico, a autenticidade se solidifica não como uma estratégia de marketing passageira, mas como um imperativo estratégico para a sustentabilidade de longo prazo.

O sucesso duradouro não se mede em curtidas e visualizações vazias, mas na profundidade das conexões humanas que são construídas.

A evidência demonstra que a autenticidade constrói confiança, impulsiona o engajamento e protege a marca contra adversidades, operando como um pilar fundamental da reputação.

O futuro do conteúdo pertence às marcas e aos criadores que compreendem que a verdadeira inovação não reside apenas nas ferramentas, como a inteligência artificial, mas na habilidade de usá-las para potencializar a essência, a criatividade e a voz que só a experiência humana pode oferecer.

Ao invés de permitir que a tecnologia domine o processo criativo, o foco deve ser na curadoria humana, na contagem de histórias reais e na coerência entre valores e ações.

A autenticidade é, em última análise, a chave para transformar o público em uma comunidade e as transações em relacionamentos duradouros, garantindo a relevância e a sustentabilidade em um mundo cada vez mais digitalizado.  

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Gustavo Tagliassuchi
Gustavo Tagliassuchi

Eu sou Gustavo Tagliassuchi, minha formação é em tecnologia em informática, me especializei em desenvolvimento de software para a web, em Big Data e Inteligência Competitiva, e ainda em Segurança da Informação, mas minha experiência profissional desde a década de 90 inclui editoração eletrônica, gráficas, desenvolvimento de aplicativos multimídia multi-plataforma, produzi muito CD-ROM, quiosques multimídia, fui o primeiro desenvolvedor da Apple no RS.

Trabalhei em provedores de acesso à Internet, em algumas agências e também criei algumas delas (4 no total).

Ajudei a fundar a AGADi que posteriormente virou ABRADi e se multiplicou Brasil afora

Mais recentemente ainda fui sócio de uma empresa de e-mail marketing e monitoramento de mídias sociais, onde desempenhei diferentes atividades, como responsável pelo desenvolvimento de ferramentas oferecidas em padrão SAAS, fui responsável pelo suporte e atendimento de uma rede de mais de 18.000 marcas entre clientes diretos, canais e parceiros, além de dar apoio ao marketing digital da empresa.

Mas isso tudo não importa, o que importa é que eu nunca deixei de fazer web sites, atender clientes de todos os tipos e portes, e ajudar amigos e parceiros a utilizar melhor a Internet e a melhorar a qualidade dos serviços que prestavam, e até a criar produtos e escalar os mesmos.

Então, até influenciado por alguns deles, resolvi criar alguns cursos e transformar este conhecimento que adquiri em algo interessante para você.

Não vou vender nenhuma fórmula mágica, não garanto que ninguém vá ficar milionário da noite para o dia, mas eu acredito que consigo acrescentar alguma coisa da experiência que adquiri nesses últimos 27 anos para ajudar você a melhorar e a solucionar alguns problemas dos seus clientes, vou lhe ajudar a fazer a diferença na vida dos seus clientes.